Entrevista – Josepha Britto

Por Indira Naiara

 

Josepha Theotônia de Britto é uma das grandes representantes dos direitos dos aposentados e idosos no Congresso Nacional. Por sua importante atuação, em várias entidades ligadas à Confederação Brasileira dos Aposentados (Cobap) e por seu desempenho e colaboração nas lutas e conquistas em prol dos aposentados, pensionistas e idosos foi agraciada com o Prêmio Gilson Costa de Oliveira durante a Sessão Especial em comemoração aos 30 anos da Asaprev – Casa do Aposentado.

Nesta entrevista, ela conta um pouco da sua vida e trajetória na defesa dos aposentados.

 

Quando a senhora nasceu, como foi a sua infância?

Josepha Britto – Nasci   no Rio de Janeiro, em três de janeiro de l933. Meu pai era alfaiate e minha mãe dona de casa e sua ajudante. Tinha cinco irmãos. Eu era uma criança que gostava muito de estudar. Um dos fatos que mais chamam atenção na minha infância foi quando o meu pai adoeceu e teve que fechar a sua pequena alfaiataria, nessa época eu tinha 10 anos. Começamos a passar enormes dificuldades financeiras e quase tive que abandonar os estudos.

Quando me vi diante dessa possibilidade, junto com a minha madrinha, tive a ideia de ir até o prédio do “A Noite”, um dos principais jornais cariocas na época, e pedi para falar com o chefe de redação. Apesar da minha atitude, eu era muito tímida, mas estava determinada a continuar estudando. Fui sozinha falar com o senhor João Castelar de Carvalho. Comecei a lhe contar a minha história e no outro dia foi publicada no jornal uma matéria com o título “A menina que não quer bonecas”.

Essa matéria me ajudou muito, pois através dela o advogado José Eugênio Muller conheceu minha história e se propôs a contribuir com cem cruzeiros mensalmente enquanto eu estudasse. O senhor Castelar ainda escreveu uma carta para o diretor do colégio Arte e Instrução e conseguiu uma bolsa para eu cursar o ginásio gratuitamente.

O jornal “A Noite” foi uma espécie de fada madrinha em minha vida, pois várias vezes em que precisei de ajuda voltei a visitar o vespertino. Foi lá também que eu consegui o meu primeiro emprego.

Por essa proximidade com o jornal “A Noite”, a senhora se dedicou ao jornalismo?

JB – Eu bem que gostaria, mas naquele tempo não existia faculdade de jornalismo e, mesmo que existisse, teria que bolar outra ideia para arcar com os custos de mais estudos. Ao sair do jornal arrumei um emprego de secretária na Copacabana Discos.

E depois, em mais uma dessas coincidências da vida, descobri que o diretor comercial da Copacabana era filho do advogado que financiou o meu ginásio. E ele foi o fiador do meu primeiro apartamento alugado.

Entrei na Copacabana com 18 anos e saí aos 56. Ocupei diversos cargos como: secretária do chefe de vendas, encarregada de produção, diretora de estoque e algumas vezes até atuei como jornalista, pois escrevia notas para o informativo da empresa.

Os anos em que trabalhei na Copacabana foram muito bons, pois eu adoro música e lá tive a oportunidade de conhecer vários artistas como Moacyr Franco, Ângela Maria, Elizeth Cardoso e Jackson do Pandeiro. Alguns deles se tornaram amigos muito queridos, como Agnaldo Rayol e Luiz Vieira.

Não pude ser jornalista, mas tenho a alegria de ter produzido muita matéria, tanto no trabalho na Copacabana, como na luta em defesa dos aposentados, pensionistas e idosos.  Tive inclusive o orgulho de ter compartilhado com muita gente importante, da criação do primeiro projeto do Estatuto do Idoso.  Além disso, o orgulho de ver minha única filha tornar-se uma jornalista de muita competência e prestígio.

Quando a senhora decidiu se engajar no movimento em defesa dos aposentados?

JB – Certo dia, ao sair da hidroginástica, fui dar uma volta na Praça da Sé. Lá estava acontecendo um encontro de aposentados. Foi quando uma senhora me pediu ajuda, dizendo que tinha se aposentado por invalidez e que recebia apenas 15% do salário mínimo. Fiquei sensibilizada com a sua história e decidi que iria ajuda-la. No mesmo dia, abordei um senhor que falava ao microfone durante o evento. Ele era o presidente da Federação de Aposentados e Pensionistas do Estado de São Paulo (Fapesp). Marquei uma reunião com ele e descobri que existiam diversos casos como o daquela senhora.

A partir daí comecei a trabalhar como voluntária na Federação dos Aposentados. Inicialmente eu ia duas vezes por semana, porém a cada dia me envolvia mais, então passei a ir todos os dias.  Cheguei a me candidatar a presidência da Fapesp, mas não fui eleita.

Depois disso, comecei a colaborar com a Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap) e aceitei um cargo remunerado de assessora da diretoria do setor dos aposentados do Sindicato dos Bancários.

Junto com os deputados federais Paulo Paim (PT/RS) e Arnaldo Faria de Sá (PTB/SP),  criamos a Frente Parlamentar em Defesa da Previdência e posteriormente fui indicada para outro cargo em Brasília. Aceitei ficar lá por dois anos, mas fiquei por 17 anos.

Nesses anos de luta conquistei amigos importantes no Congresso Nacional e no Movimento Nacional dos Servidores Aposentados e Pensionistas (Mosap), que luta contra a injusta e cruel cobrança previdenciária sobre os proventos de servidores públicos aposentados. E tornei-me editorialista do boletim em defesa da previdência social pública “A Frente Informa”, que circulava  diariamente na internet.  Ao decidir retornar a São Paulo continuei em casa esse boletim, mudando o nome para “Josepha Britto Informa”.

A Asaprev/Casa do Aposentado está completando 30 anos, como a senhora avalia o trabalho desta associação?

JB – Logo que iniciei minhas andanças por Brasília, em busca de apoio para a nossa luta, dentre os companheiros de trabalho, logo me chamaram a atenção os representantes da Asaprev de Salvador. Nesta época, a associação tinha cerca de cinco anos de fundação, mas era muito presente na epopeia que era a luta dos aposentados e pensionistas.

Foram muitas vitórias, que sempre animavam a continuidade deste trabalho maravilhoso, que envolve muita gente valorosa. Alguns já fora do nosso convívio, mas que deixaram muita saudade, dentre os quais não podemos deixar de lembrar, o seu fundador, Gilson Costa de Oliveira.

Hoje com 30 anos, e uma sede que sempre foi orgulho do seu fundador, a Asaprev é uma referência muito especial para o movimento dos aposentados e pensionistas brasileiros. A figura do Gilson segue muito bem representada pelo seu filho, o advogado Marcos Barroso de Oliveira e, segue viva na lembrança de todos os aposentados e pensionistas que seguiam seus passos pelas ruas de Salvador defendendo os direitos dos seus companheiros.