Inadimplência dos idosos cresce 8,56% em um ano, aponta SPC Brasil

Aos 72 anos, a pensionista Corália Oliveira Cerqueira já não sabe mais  calcular o  quanto deve – são duas contas de luz atrasadas, no valor de R$ 200, uma dívida de R$ 700, outra de R$ 200 para uma filha e mais algumas contas. Ela, que ajuda a sustentar duas filhas e um neto, faz parte dos mais de 5 milhões de idosos, entre 65 e 94 anos, que estão com débitos atrasados no Brasil.

Esse, inclusive, é o grupo de inadimplentes que mais cresceu em agosto deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado – com aumento de 8,56%. O dado é do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

Pensionista, Corália Cerqueira, de 72 anos, ajuda a sustentar duas filhas e um neto e deve mais de R$ 1 mil (Foto: Naiana Ribeiro)

Isso ocorreu, sobretudo, devido ao empréstimo consignado. E se depender do governo, o percentual de idosos endividados deve aumentar, já que no último dia 15 a Câmara aprovou Medida Provisória 681, apresentada pelo Executivo para ampliar de 30% para 35% o limite de desconto em folha, conhecido também como crédito consignado, sendo que esses 5% a mais só podem ser usados para pagar dívidas com cartão de crédito.

Segundo o levantamento do SPC, enquanto a média de crescimento de devedores no país foi de 4,86%, o aumento de idosos endividados no período de um ano foi de 8,56% – a parcela de devedores entre 65 e 84 anos cresceu 8,32%; já entre 85 e 94 anos, a inadimplência está 10,47% maior.

“Esse aumento na inadimplência dos idosos pode ser explicado por dois motivos:  primeiro porque eles têm uma participação menor (representam 8,82% dos devedores do país). Ou seja, qualquer alteração na faixa faz uma grande diferença. Segundo porque os idosos têm aumentado seu consumo”, explica a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Segundo ela, os idosos estão gastando mais, inclusive com eles mesmos e não só com a família.

Consignado
A economista ressalta ainda que o empréstimo consignado teve grande influência sobre o aumento dos endividados idosos neste período. “A renda que sobra é menor e, consequentemente, o idoso fica inadimplente em outras categorias de crédito”, revela, complementando que cerca de um terço da remuneração de aposentados e pensionistas pode ser comprometida em  operações com o consignado.

De acordo com a advogada do Centro de Apoio ao Aposentado e Trabalhador (Cenaat), Vera Brigatto, essas dívidas podem ser explicadas pelos constantes financiamentos, que resultam numa bola de neve. “O aposentado deseja ajudar a família, mas o dinheiro não rende o suficiente. Então, muitos recorrem ao consignado. Como as contas e os juros estão mais altos, ele volta a tomar empréstimos, ampliando ainda mais a dívida”, comenta.

Para o especialista em Direito Previdenciário e presidente da Asaprev (Casa do Aposentado), Marcos Barroso, o consignado acaba atraindo as pessoas acima de 65 anos pois o acesso é fácil. Ele ressalta  que o idoso – que já fora considerado um ‘fardo’ pelas famílias – hoje também paga as contas.

“A principal razão para o endividamento desta faixa é a perda do poder de compra. Com a crise, o desemprego faz com que os idosos se comprometam, ainda mais, com o orçamento da família”, diz.

Segundo ele, a população nordestina é ainda mais afetada pelos efeitos da recessão. Também por isso é a segunda região mais atingida pela inadimplência, perdendo apenas para o Sudeste.

Desvalorização
O presidente regional do Sindicato Nacional dos Aposentados, Nilson Baía, acredita que a inadimplência maior da faixa etária está ligada à desvalorização dos benefícios de aposentados.

Baía explica alta da inadimplência: ‘Corremos para ajudar nosso filhos’
(Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

“Se já não tínhamos dinheiro para pagar as contas antes, agora está pior. Quando a gente vê a dificuldade, corremos para ajudar nossos filhos, netos. Mas o salário não dá nem para os remédios, que ficam cada vez mais caros”, afirma.

De acordo com ele, quase 9 milhões de aposentados ajudam na complementação da renda da família no Brasil. “Não tem outra forma. Nos  endividamos para tentar sobreviver”, completa.

Com esse mesmo pensamento, de tentar viver – mesmo que empurrando as contas com a barriga -,  a pensionista Corália Oliveira Cerqueira, 72, tem sua renda comprometida no consignado há 13 anos. As dívidas são tantas que ela não consegue mais calcular.

“Sei que não é bom pegar empréstimo. Mas, quando a gente tem que ajudar a sustentar duas filhas e um neto e ainda tem outras contas, o jeito é esse”, afirma. “Só agora tenho as contas de luz de julho e agosto sem pagar, totalizando R$ 200; uma dívida de R$ 700, outra de R$ 200 para minha filha e outras contas atrasadas”, acrescenta, revelando que no dia a dia  a preocupação só aumenta.

“Quando recebo a pensão, vou pagando o que dá, deixando outras contas para pagar depois… Algumas vezes peço ajuda para as pessoas na Igreja e procuro doações.

Diferente de Corália, o motorista aposentado José Cosme Borges, 88, não está com dívidas, mas teve que cortar diversos custos  para adequar os gastos ao orçamento. “Ganho um salário mínimo e minha esposa também. A situação do país está difícil. Tenho apertado o bolso e economizado de todos os jeitos. Uso a máquina de lavar só uma vez na semana, deixo os eletrodomésticos desligados, só uso a luz quando necessário, etc”, conta Borges, acrescentando ainda que só consegue viver bem – mesmo que apertado – porque os  filhos já são adultos  e se sustentam sozinhos.

Para  o idoso que se encontra na situação de Corália, o educador financeiro do portal Meu Bolso Feliz José Vignoli não vê outra solução se não apertar ainda mais o cinto, como fez Borges.

“Normalmente, o idoso só tem uma fonte de renda. É preciso planejar, dentro do possível, e ser egoísta neste momento”, fala. Isso porque muitos idosos se comprometem com dívidas de terceiros, o que – no caso de uma pessoa que não honra o compromisso – pode resultar no endividamento do aposentado  responsável pelo empréstimo.

Esforço
No caso de inadimplência, Vignoli diz que a família inteira pode ajudar no esforço de quitar a  dívida. “Em qualquer tipo de crédito, os juros são muito   altos. Por isso, o foco precisa ser zerar o débito atrasado”, indica.

“Sempre que entrar um ‘extra’, o idoso tem que deslocar para pagar a dívida. Nada de presentes e gastos extras. O décimo-terceiro, por exemplo, é uma boa oportunidade para sair do vermelho”.

De acordo com o educador financeiro, quando o consumidor, seja ele jovem ou idoso,  está com as finanças desequilibradas, a primeira coisa a fazer é cortar gastos e analisar quanto sobra para quitar os débitos. O passo seguinte é procurar o banco ou a financeira e tentar uma renegociação dos juros e uma nova forma de parcelamento do valor devido. “Sempre é possível negociar melhores condições de pagamento”, garante.

Controle suas  finanças e saia das dívidas

Analise a sua situação Faça um diagnóstico preciso da sua situação financeira. Se estiver com dívidas, um mapeamento de cada uma delas é essencial. Informações como o tempo, os juros, quem é o credor e qual o total da dívida  devem ser buscadas.

Estabeleça prioridades  Dívidas mais caras, como aquelas com o cartão de crédito, e perigosas, que podem gerar alguma penalidade, devem ser pagas primeiro.

Negocie com os credores  Procure o banco ou a financeira para renegociar. Lembre-se: o credor também tem interesse em negociar – é melhor receber algo do que nada. Saiba o valor de prestação que poderá pagar por mês.

Abra mão de investimentos  O pagamento da dívida é  prioridade. Muitas vezes é preciso abrir mão da poupança para quitar a dívida. No caso de contas muito altas pode ser necessário tomar precauções com relação a bens.

Planeje seu orçamento   Especialistas afirmam que existe um excesso de pelo menos 20% que pode ser cortado nas despesas mensais da família. Dá para economizar nas contas de água, energia,  etc. Aproveite para promover uma mudança nos seus hábitos financeiros. Uma opção é cortar o limite do cheque especial e do cartão de crédito.

‘É preciso mudar hábitos’
Em entrevista ao CORREIO, o economista Gustavo Casseb, professor da Unifacs, afirma que a população brasileira envelhece com uma consciência voltada para o consumo, o que aumenta as dívidas entre idosos.

Quais as principais diferenças entre o idoso de hoje para o de 20 anos atrás?
São perfis completamente diferentes. O idoso passou por um processo de empoderamento muito grande – hoje eles têm um nível bem melhor de consumo. Há 20 ou 30 anos atrás, o filho mais velho era quem sustentava os pais. Hoje, o idoso contribui mais para a renda do núcleo familiar. Muitos são chefes de família.

E o que mudou com a crise?
Esta faixa acaba ajudando mais nas despesas do lar. Com uma renda garantida todos os meses, os idosos  são tábua de salvação para as famílias.

Os idosos estão sofrendo mais do que outras faixas?
Nos últimos anos, o Brasil formou consumidores, mas não cidadãos. O idoso, que ganha entre um e dois salários (em média), não tem o hábito da poupança. O consignado, por exemplo, piorou muito a vida do aposentado. Com essa aparente “chance de aumentar a renda”, eles comprometem a renda ainda mais e se endividam cada vez mais.

Dá para sair dessa situação extrema?
Nunca é tarde para aprender. O primeiro passo é reconhecer o problema e, depois, é preciso mudar de hábitos.

Fonte: Jornal Correio da Bahia